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janeiro 05, 2017

Ligações



Em meados dos anos sessenta, a região [Algarve] foi contemplada com um aeroporto, o que iria trazer um benefício inquestionável, mas a par disso, inexplicavelmente, o desinteresse pela linha ferroviária tornou-a intransitável. (…) Até há pouco tempo, o Algarve permaneceu sem estradas capazes na ligação a Lisboa e a Espanha, e continuou sem infra-estruturas dignas, quando não mesmo inexistentes.


in: Contrato Sentimental, Lídia Jorge – Sextante Editora, 2009

maio 27, 2016

Da Fuzeta à serra com volta a Alfandangas Breve passeio pela rua principal


Vindo de Alfandangas, ao entrar na Fuzeta pela rua principal, encontramos, à esquerda, um cinema com o nome, em grandes letras, pintado na parede: Cinema Topázio.

Passos andados, a rua alarga um pouco, formando um rectângulo, estreito, arborizado e com bancos de jardim: é a Praça da República. Num dos bancos, um velho de pele amarelada, seco e curvado, de mão nodosa apoiada a um bordão, cabeça tombada, ausente e de olhos parados como de cego, fita o chão. Perto, e tão distantes, debaixo de uma palmeira, dois rapazinhos jogam ao berlinde.

No outro lado há um café. Está aberto e vazio. Sobre o passeio, sentados em cadeiras com os espaldares, onde apoiam os braços, voltados para a frente, dois homens, de chapéu levantado na nuca e caído nos olhos, falam com outros dois homens, os quais, também de chapéus levantados na nuca e caídos nos olhos, estão de pé, pernas cruzadas, corpo inclinado para a banda, e encostam os cotovelos à capota de um automóvel.

Quando passo, calam-se. E todos os quatro, sem se moverem, vão virando furtivamente os olhos, a tentar descobrir quem sou, de onde venho, que faço. Sigo em frente como se nada tivesse notado. Ao passar, noto aborrecido que, à esquina da Praça da República, o Bar da Tia Anica ainda não abriu.

E lá continuo no jogo do cego que vê tudo. A tarefa obriga. Ver, ouvir e saber eis a base do repórter. Assim, indo a meio caminho, avisto, pela porta de uma casa térrea, quatro ciganos vestidos de preto, caras duras e de chapéu negro, sentados em volta de uma mesa. Atrás deles, de pé, quatro ciganas delgadas e altas, também vestidas de preto, aquietavam-se, de braços cruzados sobre os seios. No silêncio da casa, a mais jovem, de queixo atirado para a frente, chora.

Foi somente o que vi. Nada mais do que isso. Um quadro para ilustrar uma crónica de repórter. Bem diferente, no entanto, da fotografia dos três ingleses de Monte Gordo.

In: Manuel da Fonseca, Crónicas Algarvias

maio 20, 2013

O ELOGIO DO ALGARVE NAS PÁGINAS DO «NEW YORK TIMES»


O ELOGIO DO ALGARVE NAS PÁGINAS DO «NEW YORK TIMES»

Sob o título «Poesia primitiva no Sul de Portugal», o periódico New York Times publica para o seu milhão de leitores um artigo no qual exaltam as belezas do Algarve.
Afirmando que o Algarve possui o necessário para atrair o turista norte-americano, que admira a beleza, a paz e a tranquilidade da meridional província portuguesa, o articulista saliente ainda que, com a tradicional modéstia e reserva, o povo português principia a dar-se conta que a Praia da Rocha rivaliza em beleza com Cabo Ferrat, com uma vida que custa a quinta parte, se tanto.

In: Anuário do Turismo Português, 1961, p. 62

janeiro 09, 2013

AS COMEMORAÇÕES HENRIQUINAS E O TURISMO DO ALGARVE




"AS COMEMORAÇÕES HENRIQUINAS
E O TURISMO DO ALGARVE

Deu-se início neste mês de Março, em todo o País, às cerimónias da comemoração do 5.º centenário da morte do infante D. Henrique.
Nestas cerimónias surge-nos, inevitavelmente, como cenário principal, o promontório de Sagres – centro de preparação de toda uma fantástica e imorredoura epopeia marítima.
Em Sagres, é toda a província do Algarve que está em festa!
A permanente Primavera desta sempre florida região do Sul transforma o Algarve numa acolhedora pousada portuguesa, este ano realçada com a evocação histórica de maravilhosos feitos."

in: Anuário Turismo do País, 1961-62, p. 51

abril 05, 2012

Algarve, anos 60

«(…) Mas os tão saudosos, quanto conturbados, anos 60 assinalaram também os primeiros investimentos no turismo algarvio e o arranque de grandes empreendimentos, como os de Vilamoura e Torralta. Por isso, considero notável a sua profetização do turismo como principal sector de desenvolvimento socioeconómico do Algarve.



As palavras com que Vasco da Gama Fernandes fundamenta as potencialidades do Algarve para o incremento do turismo, constituem o cerne desta brilhante peça jornalística. (…) Demonstram-no afirmações tão modelares quanto aquela em que alude à singularidade do povo algarvio, numa espécie de simbiose entre o homem e o mar: "O mar imenso, nas suas complexidades e nos seus atractivos, modelou uma psique que não encontra semelhança noutro ponto do país. Vivendo, primordialmente, dele, o algarvio parece trazer na alma o alvoroço das tempestades e a quietude moirisca dos crepúsculos. É um ser àparte na comunidade portuguesa."


Essa singularidade do povo algarvio evidenciava-se também no dramático fenómeno da emigração e das alterações culturais (enculturação) a que se submetiam os portugueses além fronteiras: "...quando regressa, embora com modificações na sua maneira de ser é sempre o mesmo algarvio, individualista e orgulhoso, habituado à fartura e à pobreza, mas de espinha direita e alma lavada."»

Excerto texto de José Carlos Vilhena Mesquita, acerca do artigo de Vasco da Gama Fernandes, publicado na República, de 21-3-1960, intitulado "Algarve".