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maio 20, 2016

O marítimo de Olhão

"O marítimo de Olhão tem, como nenhum outro, um grande sentimento de igualdade: estende a mão a toda a gente. É que no mar os homens correm os mesmos perigos. São também profundamente religiosos, porque estão a toda a hora na presença de Deus. Duas tábuas, a fragilidade e a incerteza forçam-nos a contar consigo e com a companha. Arriscam a vida para salvar a dos outros: hoje por ti, amanhã por mim. Homens simples porque a profissão é simples e o meio, grande e eterno, não os corrompe. E, como o mar abundante e pródigo não tem cancelas, são generosos, imprevidentes e comunistas. Detestam os tribunais, que não compreendem, e ignoram a vida da terra. Se a mulher lhes morre, não entram em licitações com os filhos: deixem-lhes a eles o barco e as redes e tomem conta do resto. Reparei que em todas as casas havia uma gaiola com um pintassilgo. Os homens do mar tiveram sempre uma grande ternura pelas aves."

in: Raul Brandão, Os Pescadores

maio 07, 2016

Olhão


"De manhã saio em Olhão deslumbrado. Céu azul-cobalto - por baixo, chapadas de cal. Reverberação de sol, e o azul mais azul, o branco mais branco. Cubos, linhas geométricas, luz animal que estremece e vibra como as asas de uma cigarra. Entre os terraços, um zimbório redondo e túmido como um seio aponta o bico para o ar. E ao cair da tarde, sobre este branco imaculado, o poente fixa-se como um grande resplendor. É uma terra levantina que descubro; só lhe faltam os esguios minaretes. Duas cores e cheiro : branco, branco, branco, branco doirado pelo sol, que atingiu a maturidade como um fruto, pinceladas de roxo uniformes para as sombras, e um cheirinho suspeito a cemitério. O fruto que chega a este estado está a dois dedos do apodrecimento, e é talvez por isso que a ideia do sepulcro me não larga nas noites brancas e pálidas em que me julgo perdido num vasto campo funerário..."

in: Raul Brandão, Os Pescadores

abril 23, 2015

A propósito do bioco

“O biôco, este extraordinario biôco, é digno de chronica para esclarecimento e regalo do leitor estranho a esta região” (“O Algarve: notas impressionistas”)


Para mais informações clique aqui: Bioco

abril 17, 2015

A fartura é a sardinha

(...) 

Mas a abundância e a riqueza, a fartura, é a sardinha. Foi inesgotável, foi compacta, tanta que noites inteiras e seguidas ninguém em Olhão podia dormir. E dizia-se:
– Houve hoje grande matação de peixe. – Há aqui duas qualidades: a do sueste, que vem em Abril e arranca aos cardumes da costa de Marrocos; e o peixe do sudoeste,
maior, mais gordo e menos saboroso, isto sem contar com a sardinha de passagem, que aparece em Janeiro quando desova. – Já lá anda perdida... – dizem os pescadores. –
Morde-lhe a ova.
(...)


in: Raul Brandão, Os Pescadores

dezembro 21, 2014

Ainda o nevão



“Durante parte do dia de ontem e da noite passada caiu sobre esta cidade [Faro] forte nevão, facto que se regista aqui pela primeira vez e despertou a mais viva curiosidade, pois a maior parte da população nunca vira neve. Esta atingiu nalguns pontos mais de um palmo de altura e conservou-se durante quase todo o dia de hoje, que esteve muito frio”.

"A neve caiu em São Brás ininterruptamente durante 10 horas, atingindo nas ruas “30 centímetros de altura e, nalguns sítios, 1 metro”


Na Fuzeta, escreveram os jornais da época, “não há memória de espectáculo tão deslumbrante como o que se verificou nesta povoação, cujas ruas e açoteias ficaram cobertas de neve”. 



maio 05, 2014

Olhão - indústria

"Com Loulé e Vila Real de Trás-os-Montes, é tida Olhão, dentro da sua categoria, como a localidade mais importante e progressiva de Portugal. À indústria da pesca e das conservas - durante a guerra chegou a contar 80 fábricas dentro de muros - deve a vila o seu repentino e esporádico desenvolvimento. Hoje a parte moderna, distribuída por alegres e largos bairros, bem iluminada, cintura contra o mar o Olhão velho, dédalo de ruas e becos estreitos e imundos, em que se acotovelam casas brancas dum só piso, com açoteias à mourisca" (...)

 In: Guia de Portugal, 1927, p. 246

janeiro 13, 2012

"De Olhão a Tavira, a paisagem é deliciosa, na frescura dos seus arvoredos e na variedade das culturas onde avista o motivo dominante dos figueiraes. Alguns apeadeiros, facilitando a communicação com as vivendas … e com as aldeias que se aninham por vinhedos e pomares. Fuzeta, tão celebrizada pela excellencia dos seus vinhos, e pouco depois – Tavira.

A nossa primeira impressão da cidade é de inteiro agrado, ao percorrer a linda ponte, como um enorme hyphen a dividir os dois barros marginaes. A beira d’agua, d’essa ria imensa onde as areias da foz vão conquistando o passo de grandes embarcações, desdobra-se o jardim público, na garridez da floração, desenhando caprichosos arabescos em torno do coreto. Localisa-se áli um trecho de Veneza onde não faltam, n’um arremedo de gôndolas, as bateiras recurvas dos pescadores."
in: João Arruda - Cartas d’um viajor,1908,  p. 117

janeiro 12, 2012

Olhão

A vila, que teve o seu génesis n’um agrupamento de cabanas de pescadores, e conquistou mais tarde o título de Vila Nova da Restauração, rumoreja agora de actividade, na faina constante de cahiques que povoam o porto, levando a todo o Algarve os produtos agrícolas e o peixe que as armações de sardinha e de atum conquistam aos domínios de Neptuno.

Transpomos a avendida que abre, de caminho de ferro à devota capela do Senhor dos Aflitos, onde algumas árvores desenvolvem lentamente a sua vegetação chlorotica e bancos munipaes de balde convidam ao descanço uma população de trabalhadores. E certo que as casas têm bom aspecto, sempre brancas, como pétalas d’açucena. (…) As mulheres de Olhão são formosas, d’uma beleza cativante. À falta de diversões onde pompear a sua radiosa mocidade, elas entretêm-se na contemplação do mar, binoculando as embarcações de pesca que entram e saem do porto. D’ai o motivo porque em ruas tão estreitas se vêem mirantes… tão altos.
in: João Arruda - Cartas d’um viajor,1908, p.113