Uma viagem ao(s) Algarve(s)!!! «O viajante não é turista, é viajante. Há grande diferença. Viajar é descobrir, o resto é simples encontrar» (Saramago)
julho 07, 2016
maio 27, 2016
Da Fuzeta à serra com volta a Alfandangas Breve passeio pela rua principal
Vindo
de Alfandangas, ao entrar na Fuzeta pela rua principal, encontramos, à
esquerda, um cinema com o nome, em grandes letras, pintado na parede:
Cinema Topázio.
Passos andados, a rua alarga um
pouco, formando um rectângulo, estreito, arborizado e com bancos de
jardim: é a Praça da República. Num dos bancos, um velho de pele
amarelada, seco e curvado, de mão nodosa apoiada a um bordão, cabeça
tombada, ausente e de olhos parados como de cego, fita o chão. Perto, e
tão distantes, debaixo de uma palmeira, dois rapazinhos jogam ao
berlinde.
Quando passo, calam-se. E todos
os quatro, sem se moverem, vão virando furtivamente os olhos, a tentar
descobrir quem sou, de onde venho, que faço. Sigo em frente como se nada
tivesse notado. Ao passar, noto aborrecido que, à esquina da Praça da
República, o Bar da Tia Anica ainda não abriu.
E lá continuo no jogo do cego que
vê tudo. A tarefa obriga. Ver, ouvir e saber eis a base do repórter.
Assim, indo a meio caminho, avisto, pela porta de uma casa térrea,
quatro ciganos vestidos de preto, caras duras e de chapéu negro,
sentados em volta de uma mesa. Atrás deles, de pé, quatro ciganas
delgadas e altas, também vestidas de preto, aquietavam-se, de braços
cruzados sobre os seios. No silêncio da casa, a mais jovem, de queixo
atirado para a frente, chora.
Foi somente o que vi. Nada mais
do que isso. Um quadro para ilustrar uma crónica de repórter. Bem
diferente, no entanto, da fotografia dos três ingleses de Monte Gordo.
In: Manuel da Fonseca, Crónicas Algarvias
maio 20, 2016
O marítimo de Olhão
"O
marítimo de Olhão tem, como nenhum outro, um grande sentimento de
igualdade: estende a mão a toda a gente. É que no mar os homens correm
os mesmos perigos. São também profundamente religiosos, porque estão a
toda a hora na presença de Deus. Duas tábuas, a fragilidade e a
incerteza forçam-nos a contar consigo e com a companha. Arriscam a vida
para salvar a dos outros: hoje por ti, amanhã por mim. Homens simples
porque a profissão é simples e o meio, grande e eterno, não os corrompe.
E, como o mar abundante e pródigo não tem cancelas, são generosos,
imprevidentes e comunistas. Detestam os tribunais, que não compreendem, e
ignoram a vida da terra. Se a mulher lhes morre, não entram em
licitações com os filhos: deixem-lhes a eles o barco e as redes e tomem
conta do resto. Reparei que em todas as casas havia uma gaiola com um
pintassilgo. Os homens do mar tiveram sempre uma grande ternura pelas
aves."
in: Raul Brandão, Os Pescadores
maio 12, 2016
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